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Crédito via venture debt ganha força no Brasil Adicionado em 10/07/2020
 
Uma startup é, por definição, uma empresa jovem, mas com alto potencial de crescimento. Para atingir as metas de expansão, os empreendedores normalmente contam com duas opções de financiamento: encontrar um sócio disposto a encarar a empreitada ou tomar uma dívida. A primeira alternativa, representada pelo venture capital, é a mais comum. Nesse modelo, os investidores aportam dinheiro no negócio e, recebendo como contrapartida uma fatia do capital da empresa nascente, compartilham com os fundadores riscos e ganhos. O outro caminho, de dívida, pode ser trilhado por meio do chamado venture debt, que começa a ganhar fôlego no Brasil, principalmente diante da notória dificuldade que empresas menores enfrentam para obter empréstimos no sistema financeiro (trava que ganhou vulto com a pandemia).

Para aderir ao venture debt, o empreendedor tem de procurar diretamente fundos de crédito que operam nesse mercado, negociando com eles os valores a serem liberados, caso a caso. Flexibilidade de condições é uma das vantagens do venture debt: os prazos — em geral, de 12 a 48 meses — são fixados conforme os ciclos operacionais da tomadora; o período de carência para o início dos pagamentos, o sistema de amortização e as taxas de juros igualmente são estabelecidos de acordo com as particularidades das startups.

As garantias são variadas, em linha com a marca de flexibilidade que acompanha o venture debt. Elas vão das mais comuns — cessão de contratos, ações da startup e máquinas e equipamentos — às menos tangíveis, como direito à propriedade intelectual ou à marca. O modelo inclui também um componente extra, conhecido como kicker. Trata-se de um prêmio que a tomadora paga ao investidor e cujo valor está atrelado ao sucesso da empresa em eventos de liquidez, como a entrada de novos sócios e ou aumento do capital social, por exemplo.

O venture debt faz parte do universo de venture lending, conjunto de instrumentos de dívida destinados a empreendimentos de risco, sendo sua finalidade o financiamento de longo prazo. “O objetivo não é resolver problemas de caixa por alguns meses, e sim financiar o plano de negócio da empresa. O venture debt é um produto de longo prazo, que gera um valor agregado para o equity”, afirma Gabriela Gonçalves, CEO do Brasil Venture Debt, primeiro fundo desse segmento captado no País.

Gonçalves, que na última semana participou de evento online promovido pela Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP), destaca que o mercado de dívida para startups ainda está em fase de desenvolvimento no Brasil — o que já representa um avanço, considerando que até não muito tempo atrás essas empresas enfrentavam escassez crônica de recursos nas mais variadas fontes de funding. “Os bancos exigiam garantias de ativos e bens que startups em estágio inicial evidentemente não tinham condições de oferecer. Hoje o cenário é outro, e já existem instituições financeiras pensando em estruturas de dívida específicas para negócios inovadores”, comenta.

Para operações com horizonte mais longo, o venture debt e o venture capital são as melhores opções para as startups. Para escolher entre as duas, o empreendedor deve ter claro qual tipo de financiamento é mais interessante para o momento da empresa. A captação via venture capital é um processo mais longo, que dilui a fatia de participação dos fundadores e requer um grande dispêndio de energia na busca por um novo investidor. “Se a empresa optar por equity, a cada vez que for fazer uma expansão os rounds de investimento vão ficando menos eficientes”, diz Thiago Maluf, sócio da plataforma de venture capital e-bricks ventures.

Cada rodada de investimento, também conhecida como série, é um momento em que o investidor pode aportar capital na companhia em troca de uma participação acionária no negócio. Os rounds são mais polpudos dependendo do estágio de desenvolvimento da startup e do grau de confiança do mercado quanto ao potencial de expansão do empreendimento. Sendo assim, algumas vezes é mais vantajoso que o empreendedor adquira uma dívida entre as rodadas. Assim pode impulsionar seu negócio e conseguir lances mais altos na série seguinte envolvendo ações.

Essa foi a opção da foodtech Goomer, que tomou um empréstimo de 1,6 milhão de reais. Em maio deste ano, a startup escolheu a via da dívida para acelerar o lançamento do GoomerGo, um canal de vendas para delivery que conecta diretamente o restaurante ao cliente, sem intermediários. “A empresa optou pelo venture debt para aumentar seu potencial antes do próximo round”, conta Rodrigo Borges, sócio e cofundador da gestora Domo Invest, uma das investidoras da Goomer. Na prática, o empréstimo se torna um mecanismo de apoio para financiamento entre rodadas e permite que as startups voltem ao mercado quando já estão mais robustas.

Ressalva ao venture debt

Existe, porém, uma ressalva quanto ao uso de dívida por startups no modelo de venture debt. Segundo a CEO do fundo Brasil Venture Debt, a operação deve ficar fora do radar de negócios em estágio inicial de desenvolvimento. “Se a empresa está na fase de idealizar o produto, significa que o terreno ainda está muito incerto para a aquisição de uma dívida. É necessário um nível mínimo de maturidade; a startup já deve ter alguns cases e necessidade de crédito para se expandir”, pontua.

O fundo oferece crédito a empreendimentos inovadores que tenham registrado faturamento mensal entre 350 mil reais e 90 milhões de reais no ano anterior. Até o momento, três empresas além da Goomer já se valeram do crédito do fundo: Ambar Tech (construção), Kenoby (recursos humanos) e Legurmê (alimentação). O venture debt não faz distinções em termos de setores, desde que sejam oferecidas garantias condizentes a uma estruturação adequada de dívida para startups.

Fonte: Capital Aberto


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